Câmbio paralelo em Angola: porque é que o dólar tem sempre dois preços

Data:

Em qualquer esquina de Luanda onde se troque dinheiro, a mesma pergunta tem sempre duas respostas. Há a taxa que aparece no site do Banco Nacional de Angola e há a taxa que um cambista informal, ou um conhecido com dólares para vender, está disposto a praticar. As duas nunca coincidem, e isso não é um defeito passageiro do sistema financeiro angolano — é uma característica estrutural que atravessa décadas e que continua a moldar o custo de vida de quem compra, vende ou poupa no país.

A origem desta dualidade está ligada à própria natureza da economia angolana. Com as exportações de petróleo a garantirem a esmagadora maioria das divisas que entram no país, e com uma economia que depende fortemente de importações para quase tudo o que consome, o dólar nunca circula livremente: entra pelo canal petrolífero, é canalizado para o Banco Nacional de Angola e para o Tesouro, e só depois é distribuído aos bancos comerciais, normalmente através de leilões ou da plataforma Bloomberg FXGO. Quando a oferta disponibilizada por essa via não chega para cobrir a procura de empresas e particulares, forma-se inevitavelmente um mercado alternativo onde o dólar se vende a um preço mais alto — o que em Angola se conhece popularmente pela actividade das “kinguilas”. Como descreveu em 2017 o jornal económico Eco, citado pelo Sapo, este mercado de rua nasceu precisamente da escassez de divisas e tornou-se, em determinados períodos, a principal via de acesso ao dólar para quem não conseguia obtê-lo pelo canal bancário (ECO/Sapo).

O BNA já experimentou regimes diferentes para tentar controlar este fosso. Entre 2018 e 2019 vigorou uma banda cambial que limitava a depreciação do kwanza a 2% por leilão. Em Outubro de 2019, face à queda das reservas internacionais e ao agravamento do diferencial entre a taxa oficial e a paralela, o banco central decidiu deixar a moeda flutuar livremente, no âmbito do programa de financiamento ampliado de três anos acordado com o Fundo Monetário Internacional, que terminou em 2021 (Focus Economics). Depois de o programa com o FMI se encerrar, o regime voltou, na prática, a um controlo mais administrativo: a taxa oficial permaneceu praticamente parada entre 912 e 913 kwanzas por dólar durante quase dois anos, segundo o próprio FMI, que insiste junto de Luanda para que o país regresse a uma maior flexibilidade cambial e adopte um quadro de intervenção transparente e baseado em regras (Expansão).

O governador do banco central tem rejeitado a ideia de que o câmbio esteja fixo, mas os números do mercado contam outra história.

É isso que explica porque a diferença entre as duas taxas nunca desaparece de vez, mesmo quando se reduz. Segundo o Relatório de Conjuntura do Banco de Fomento Angola relativo ao 3º trimestre de 2026, a taxa oficial situava-se entre 20% e 24% abaixo da taxa praticada no mercado paralelo, uma margem que se mantinha estável há mais de um ano (BFA). Com uma cotação oficial a rondar os 912 a 920 kwanzas por dólar nesse período,  segundo dados recolhidos pela Trading Economics em Novembro de 2026, essa margem percentual coloca o dólar informal, por estimativa aritmética simples a partir do próprio gap reportado, algures entre 1.100 e 1.140 kwanzas, ainda que nenhuma das fontes consultadas publique esse valor absoluto mais recente.

Quem recorre ao mercado paralelo não é um grupo homogéneo. Há quem precise de enviar dinheiro para fora do país, para pagar uma consulta médica no estrangeiro, uma mensalidade universitária de um filho ou uma remessa a um familiar e descubra que o canal informal, apesar do risco, por vezes sai mais barato do que o formal depois de somadas as taxas bancárias, como ilustrou o Expansão com o exemplo de uma transferência de 400 euros.

Há pequenos importadores informais que não têm acesso às quotas de divisas alocadas pelos bancos ao sector empresarial organizado, nem tempo para esperar pelas filas de licenciamento cambial. E há quem simplesmente queira proteger as suas poupanças da inflação e da depreciação do kwanza, trocando parte do que ganha por dólares físicos, uma lógica de poupança informal que persiste independentemente do nível de inflação em cada momento.

A escassez de divisas junto dos bancos comerciais também ajuda a explicar a persistência do fosso. Segundo o Expansão, o sector petrolífero forneceu cerca de 41% de toda a divisa comprada pelos bancos comerciais em 2024, o que deixa a oferta cambial do país praticamente à mercê do preço e do volume de petróleo exportado (Expansão). Quando esse fluxo desacelera, ou quando a procura das empresas cresce mais rapidamente do que a oferta disponibilizada nos leilões, forma-se um volume de pedidos por satisfazer. O relatório mais recente do BFA relativo ao mesmo trimestre de 2026 apontava um encalhe de pedidos de compra de divisas junto da banca de cerca de 1,7 mil milhões de dólares, com atrasos superiores a dois meses (BFA). É esse atraso, mais do que qualquer número isolado de câmbio, que empurra quem precisa de dólares com urgência para o mercado paralelo.

Enquanto a economia angolana continuar estruturalmente dependente do petróleo para gerar divisas e das importações para abastecer o consumo interno, a existência de duas taxas de câmbio não vai desaparecer com um simples anúncio do Banco Nacional de Angola.

Pode estreitar-se, alargar-se ou mudar de nome ao longo dos anos mas, para o angolano comum, o preço “real” do dólar continua a ser, na prática, aquele que ele consegue efectivamente obter.

CD

Partilhar o conteúdo:

Inscreva-se AGORA

spot_imgspot_img

Vale a pena ler de novo!

Conteúdos de
ACTUALIDADE

Nova rede social de Mark Zuckerberg supera X de Elon Musk em utilizadores diários

Em agosto de 2025, a rede social Threads assumiu...

Angola entre os 5 países africanos com o diesel mais barato em 2025

Com o litro a preços controlados, Angola posiciona-se como...

Nigéria acelera para a soberania automóvel: ex-executivo da Mercedes desafia Toyota com viaturas “Made in Africa”

Ajayi Joshua Oluwatobi, antigo quadro sénior da Mercedes-Benz na...