Os BRICS multiplicam-se em África — entenda AGORA porque Angola continua de fora

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Há uma década, os BRICS eram uma sigla com quatro letras e um significado quase teórico para a diplomacia africana. Hoje já não. Entre Janeiro de 2024 e Janeiro de 2025, o bloco passou de cinco para dez membros plenos, e três desses novos lugares foram para África: Egipto, Etiópia e, antes deles, a África do Sul, que aderiu ainda em 2010.

Juntam-se-lhes, como “países parceiros”, um estatuto intermédio, sem assento pleno nas decisões mas com acesso a parte da arquitectura do bloco: a Nigéria e o Uganda, ambos desde Janeiro de 2025, e a Argélia. O Gana anunciou em Outubro deste ano, pela voz do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Samuel Okudzeto Ablakwa, que o Conselho de Ministros aprovou uma candidatura formal de adesão, sinal de que a fila continua a crescer, mesmo que a entrada já não seja automática.

O BANCO DOS BRICS QUER ASSUMIR PREPONDERÂNCIA EM ÁFRICA 

O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla inglesa), o banco multilateral fundado pelos BRICS em 2014 e sedeado em Xangai, segue uma lógica própria, distinta da do bloco político: tem membros que não são membros dos BRICS, e nem todos os membros dos BRICS pertencem a ele.

Segundo a apresentação a investidores do próprio banco, datada de Junho de 2026, o NDB conta com dez membros, os cinco fundadores (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), mais Bangladesh, os Emirados Árabes Unidos, o Uzbequistão e, do continente africano, o Egipto e a Argélia.

O Uruguai, a Colômbia e a Etiópia já foram admitidos pelo Conselho de Governadores mas aguardam formalização. Mais recentemente, em Julho, o ministro das Finanças do Zimbabué, Mthuli Ncube, anunciou numa conferência em Harare que o país garantira a adesão ao NDB — um passo que ainda não consta dos documentos oficiais do banco publicados um mês antes, o que sugere tratar-se de um processo em fase final e não totalmente fechado.

Em termos de dinheiro, o NDB não é pequeno, mas também não é o FMI. Até final de 2025, tinha aprovado cumulativamente cerca de 43 mil milhões de dólares para 139 projectos nos países membros, com uma carteira activa de mais de 35,6 mil milhões distribuídos por 115 projectos.

A África do Sul é, de longe, o maior beneficiário africano, representando cerca de 18% dessa carteira. O Egipto, por seu lado, tem em curso um empréstimo de 200 milhões de dólares ao Afreximbank, que depois redistribui o dinheiro a empresas privadas egípcias em energia limpa, transportes, saneamento e infra-estrutura digital, um modelo indirecto, mas que mostra como o banco começa a irrigar o continente além da África do Sul.

QUAL É POSIÇÃO DE ANGOLA NA ÓRBITA DOS BRICS

Angola? nisto tudo? Fora da órbita. Claramente fora, e não por desconhecimento do tema. João Lourenço já tinha manifestado, em 2018, vontade de ver Angola integrada nos BRICS, mas o processo nunca avançou.

Em Julho de 2025, esteve presente na cimeira do Rio de Janeiro, não como candidato ou membro, mas na qualidade de presidente em exercício da União Africana, defendendo a reforma das instituições de governação global e um “maior protagonismo do Sul Global” no financiamento ao desenvolvimento. Bem, isso é uma retórica de peso simbólico, não um pedido de adesão.

O que explica a ausência não é hesitação, é escolha. Enquanto o Egipto, a Etiópia e agora o Zimbabué somam opções de financiamento alternativo ao FMI e ao Banco Mundial, Angola aposta tudo nas vias tradicionais e nos novos parceiros ocidentais e do Golfo: a linha de 553 milhões de dólares da agência norte-americana DFC para o Corredor do Lobito, fechada em Dezembro passado; o acordo de facilitação de investimento sustentável com a União Europeia, em vigor desde 2024; e quase 6,5 mil milhões de dólares em promessas de investimento dos Emirados Árabes Unidos, depois de uma visita de Estado em Agosto de 2025. A China continua a comprar mais de metade do petróleo angolano, mas o peso da dívida a Pequim já caiu de 34% para 19% desde 2020.

Portanto, é fundamental clarificar que Angola não perde, só porque fica de fora, acesso imediato a financiamento. Tem outras portas abertas, e algumas mais generosas do que o NDB oferece aos seus membros africanos. Mas perde uma cadeira na mesa onde se discutem as regras do jogo financeiro alternativo que o Sul Global vai desenhando, peça a peça, com ou sem Luanda.

CD

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