Durante quase todo o ano passado, o mercado habituou-se a uma Reserva Federal em modo de alívio: três cortes consecutivos até Dezembro de 2025, com Wall Street a apostar em mais descidas ao longo de 2026.
Essa narrativa morreu em Junho, quando Kevin Warsh assumiu a presidência do banco central americano e, em vez de continuar o ciclo de Powell, começou a falar de inflação persistente.
Em Setembro, a Fed subiu os juros pela primeira vez desde 2023. Em 28 de Outubro, manteve o intervalo entre 3,50% e 3,75%, mas numa votação dividida de 10 contra 2, com duas governadoras a defenderem nova subida e o comunicado a descrever a actividade económica como “forte” — leitura que os mercados interpretaram como um aviso de que mais apertos podem vir antes do fim do ano.
A base para esta viragem está nos números: a inflação subjacente (core PCE) fixou-se em 3,3% em termos homólogos em Julho, mais de um ponto percentual acima da meta de 2% que a própria Fed defende há mais de uma década. Para Warsh, isso pesou mais do que o argumento do mercado de trabalho, e o resultado foi um dólar que, segundo o relatório de conjuntura do 3.º trimestre do BFA, se mantém em níveis historicamente elevados, com o euro a perder cerca de 2,6% face à moeda americana desde o início do ano.
Esta subida não fica confinada a Washington. Um relatório do grupo Dangote sobre o primeiro semestre de 2026, citado pela Nairametrics, descreve a combinação de dólar forte, juros globais elevados e dívida externa pesada como a “restrição estrutural” que está a espremer o espaço orçamental de vários países africanos, sobretudo os importadores de energia. O efeito não é uniforme: a naira nigeriana valorizou cerca de 4% face ao dólar este ano, apoiada por acumulação de reservas, enquanto o cedi do Gana caiu cerca de 11% e o rand sul-africano ficou praticamente estável.
A diferença resume-se, essencialmente, a quem tem reservas e credibilidade de política económica para absorver o choque. A S&P Global Ratings estima que os governos africanos terão de pagar mais de 90 mil milhões de dólares em dívida externa só em 2026, um recorde histórico, com o Egipto a sozinho responder por quase um terço, cerca de 27 mil milhões de dólares.
Angola não está isenta desta equação. O stock de dívida externa fechou o primeiro trimestre de 2026 em 64,1 mil milhões de dólares, uma subida de 9% em termos homólogos, e a dívida pública total atingiu 72 mil milhões de dólares a meio do ano, dos quais 52,4 mil milhões correspondem à componente externa.
O Orçamento Geral do Estado para 2026 previu 15,2 mil milhões de dólares só para serviço da dívida, cerca de 84% das receitas fiscais projectadas e 46% da despesa total. Mais relevante ainda: cerca de 79% da dívida do Estado está exposta ao risco cambial, o que significa que qualquer movimento do dólar se transmite quase directamente ao custo de honrar esses compromissos.
A aparente estabilidade do kwanza esconde parte da pressão. A moeda está, segundo o BFA, “estacionada” nos 912 kwanzas por dólar desde o final de 2024, mas o diferencial entre o mercado oficial e o paralelo mantém-se entre 20% e 24%, com uma carteira de pedidos de divisas por satisfazer a rondar os 1,7 a 2 mil milhões de dólares. Ou seja: a taxa oficial não está a flutuar porque é administrada, não porque a procura por dólares tenha abrandado, e um dólar globalmente mais forte só alimenta essa fila.
Há ainda uma divergência de política que vale a pena assinalar: enquanto a Fed aperta, o Banco Nacional de Angola tem vindo a cortar a sua taxa directora, de 17,5% para 17% em Maio, acompanhando a queda da inflação doméstica para 11,58% em termos homólogos. Juros a subir em Washington e a cair em Luanda alargam o diferencial entre as duas moedas, o que em teoria torna os activos em kwanza menos atractivos e acrescenta pressão sobre as reservas geridas pelo BNA.
Por agora, o preço do petróleo tem funcionado como almofada: Angola registou um excedente comercial de 6,97 mil milhões de dólares, beneficiando de um Brent que ultrapassou os 100 dólares em Março e Abril devido às tensões no Golfo Pérsico. Mas esse alívio é conjuntural, não estrutural. As reservas internacionais, entre 15,4 e 16,2 mil milhões de dólares ao longo do ano, cobrindo sete a oito meses de importações, continuam a ser a verdadeira linha de defesa contra a postura de Warsh, e é nessa linha, não nas taxas de juro em si, que se vai medir se Angola consegue atravessar este ciclo sem sobressaltos cambiais maiores.
CD




