Diploma já não chega: o que os números do desemprego dizem a quem vai escolher o que estudar

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Angola registou, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), uma taxa de desemprego entre os jovens dos 15 aos 24 anos de 51,8 por cento em 2025, de acordo com o Inquérito ao Emprego do mesmo ano.

É um número que qualquer jovem a terminar o ensino médio, ou a decidir se se inscreve numa universidade, devia conhecer antes de escolher o que estudar.

O dado fica mais claro quando cruzado com outro, do Inquérito ao Emprego de 2024: 82,8 por cento de todos os desempregados do país têm entre 15 e 34 anos, e a taxa de informalidade entre os jovens dos 15 aos 24 anos que efectivamente trabalham chega a 93 por cento. Ou seja, a maior parte de quem está sem trabalho em Angola é jovem, e a maior parte de quem é jovem e trabalha, trabalha sem contrato, sem segurança social e sem vínculo formal.

Dados mais recentes, do segundo trimestre de 2026, confirmam a tendência. A taxa de desemprego nacional subiu ligeiramente para 21,5 por cento, dos 21,3 por cento do trimestre anterior, e os jovens dos 15 aos 24 anos continuam a concentrar 40,5 por cento de todos os desempregados do país, quase o dobro do seu peso na população em idade activa.

Mas o dado que devia pesar mais na cabeça de quem está a escolher um curso é outro, e vem de um relatório da Universidade Lusíada de Angola em parceria com a plataforma de emprego Jobartis: no primeiro semestre de 2024, havia apenas uma vaga formal disponível por cada cinco licenciados e pós-graduados à procura de trabalho. Dois anos antes, segundo o mesmo tipo de levantamento, a proporção era de três vagas por cada dez, já era difícil, mas bem menos do que é hoje.

O mesmo relatório traz um contraste que ajuda a explicar a razão. Candidatos com formação até ao nível secundário têm, em média, melhor cobertura de vagas do que licenciados, porque a maior parte das empresas angolanas que contratam de forma regular está concentrada no comércio e na agricultura, sectores que procuram sobretudo mão-de-obra com esse nível de escolaridade, e não necessariamente um diploma universitário. O economista Heitor de Carvalho, citado no mesmo relatório, resume o problema sem rodeios: Angola precisa de “mudar a cultura de querermos ser todos doutores” e tornar o ensino mais técnico, porque a formação superior no país é, nas suas palavras, “muito teórica”.

Isto não significa que tirar um curso superior deixou de ter valor. Significa que, só por si, já não é garantia de nada. A escassez de emprego formal em Angola não é, no fundo, um problema de haver poucos licenciados, é um problema de o tecido empresarial criar poucos postos de trabalho formais, de qualquer nível de escolaridade.

Em seis meses de 2025, por exemplo, a economia angolana criou apenas 585 postos de trabalho formais destinados a jovens, um número residual face aos 6,1 milhões de jovens em idade activa que o país tinha nessa altura, segundo cálculos do jornal Expansão a partir de dados do INE.

Há, ainda assim, um movimento visível do lado do Estado que aponta numa direcção concreta. Segundo o Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, a rede de centros de formação profissional em Angola passou de 1.445, em 2022, para 2.419 actualmente, e o país diz ter criado mais de 774 mil empregos entre 2023 e o primeiro semestre de 2026.

É um sinal de que a aposta oficial está a deslocar-se da universidade clássica para a formação técnica e profissional, com programas como o “Jovem Mais”, que promete chegar a mais de 500 mil jovens dos 16 aos 35 anos até 2030, com financiamento do Banco Mundial.

Para um jovem angolano a decidir hoje o que estudar, a leitura prática destes números é esta: escolher um curso superior genérico, sem ligação a um sector que efectivamente contrata como o comércio, agricultura, construção, ou áreas técnicas e digitais, tem hoje menos probabilidade de terminar em emprego formal do que há poucos anos. A formação técnica e profissional, durante muito tempo vista como segunda opção face à universidade, está a tornar-se, pelos próprios números do mercado, uma aposta tão ou mais racional. Não é garantia nenhuma, nenhum caminho é, numa economia onde quatro em cada cinco trabalhadores ainda estão na informalidade, mas é, hoje, uma aposta com mais chão debaixo dos pés do que um diploma sem destino certo.

CD

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