Dívida de Angola à China cai, mas laços com Pequim aprofundam-se noutras frentes

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Durante quase duas décadas, a China foi, sem grande contestação, o maior credor bilateral de Angola. Esse capítulo fechou-se formalmente em 2025.

Segundo dados da Unidade de Gestão da Dívida Pública do Ministério das Finanças, citados pela Lusa, Pequim caiu para terceiro lugar entre os credores do país, com cerca de 19% do stock da dívida pública, atrás dos credores internos, agora líderes com 28%, e do Reino Unido, com 22%. Em 2020, a China detinha 34% dessa dívida.

A queda tem um motor concreto: o desmonte gradual da dívida garantida pelo petróleo, instrumento que Angola usou largamente entre o início dos anos 2000 e 2017 para financiar estradas, ferrovias e centrais eléctricas com empréstimos do Banco de Desenvolvimento da China e do Industrial and Commercial Bank of China.

Ao longo de duas décadas, a China injectou mais de 42 mil milhões de dólares em financiamento em Angola, segundo levantamento da Ecofin Agency, um volume que, no pico, pesou perto de 40% na dívida externa do país.

Angola deixou de contrair este tipo de empréstimo em 2017 e, desde então, amortiza o que resta a um ritmo que a Reuters descreveu, citando Dorivaldo Teixeira, director-geral da Unidade de Gestão da Dívida Pública, como “mais cauteloso e transparente”.

Os números confirmam a trajectória, ainda que variem segundo a métrica: a dívida colateralizada caiu de pouco mais de 10,1 mil milhões de dólares no final de 2024 para 8,9 mil milhões em Junho de 2025, com projecção de fechar o ano entre 7,5 e 8 mil milhões.

A Sonangol confirmou, em Fevereiro, que a redução em 2025 rondou os 7,73 mil milhões, quase um quarto num só ano.

Olhando à dívida total à China, incluindo a componente comercial e não só a colateralizada, o Banco Nacional de Angola regista uma queda de 35% entre 2020 e 2024, de 21,99 mil milhões para 14,35 mil milhões de dólares.

Segundo cálculos do jornal Expansão, cada angolano deve hoje cerca de 371 dólares à China, contra 818 em 2017, ano em que essa dívida atingiu o pico histórico de 22 mil milhões.

Esta redução ajudou a aliviar um indicador central: a dívida pública em percentagem do PIB caiu de 69%, em 2021, para 50,5% em 2025. O país ganhou margem orçamental e reduziu a exposição ao petróleo, a mesma vulnerabilidade que, em Abril de 2025, obrigou o Estado a pagar 200 milhões de dólares ao JPMorgan como garantia extra num título colateralizado, depois de a turbulência tarifária norte-americana fazer cair o crude.

Só que o recuo da dívida antiga não significa o fim do financiamento chinês, significa uma mudança de forma. Em Fevereiro, a Sonangol revelou negociar um empréstimo de 4,8 mil milhões de dólares com instituições financeiras chinesas para parte de uma refinaria no Lobito, orçada em 6,2 mil milhões. Seria o primeiro financiamento chinês de grande escala a Angola desde 2017 mas, desta vez, sem petróleo como garantia, segundo o presidente da Sonangol, Sebastião Gaspar Martins. Uma equipa da petrolífera viaja a Pequim em Abril, com arranque de produção previsto para 2027.

O comércio bilateral também não dá sinais de recuo. Segundo o embaixador chinês em Luanda, Zhang Bin, as trocas entre os dois países somaram cerca de 20,8 mil milhões de dólares em 2025 e já atingiam 10,8 mil milhões no primeiro semestre de 2026, ritmo que, na sua avaliação, deve superar o do ano anterior.

A China mantém-se o maior parceiro comercial de Angola e o principal comprador do petróleo, mesmo com sinais pontuais de diversificação, como o Togo ter superado a China como principal origem das importações angolanas em Maio.

Em Julho, o Banco Nacional de Angola deu um passo que resume este momento ambíguo: passou a admitir o yuan, a par do dólar, do euro e do rand, como moeda elegível para as reservas obrigatórias dos bancos comerciais. Pequim tem incentivado este movimento em várias economias emergentes, com acordos de compensação em yuan que facilitam pagamentos sem passar pelo dólar.

Angola ainda não experimentar alívio pleno

O quadro é mais complexo do que um simples “Angola deve menos à China”. O país reduziu com disciplina a componente mais arriscada da dívida externa e diversificou credores. Mas a dependência comercial mantém-se intacta, a integração monetária aprofunda-se e Pequim continua disponível para novos projectos estratégicos, agora com estruturas diferentes.

O FMI, que concluiu em Dezembro uma missão ao abrigo do Artigo IV, assinalou pressões financeiras de curto prazo elevadas e serviço da dívida considerável, num ano em que o crescimento caiu para 1,9%, depois dos 4,4% de 2024. Angola ainda deve ao próprio Fundo cerca de 3,59 mil milhões de dólares do programa de 2018-2020. A margem conquistada face à China não elimina a fragilidade estrutural de uma economia presa ao ciclo do petróleo, dá-lhe, por agora, apenas menos uma frente de pressão imediata.

CD

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